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Mensagem à comunidade › 07/10/2014

“Cidade dos Homens”

saopauloA comunidade cristã está prestes a celebrar os 50 Anos da Constituição Gaudium et Spes (1965), do Concílio Vaticano II, que aborda de modo orgânico os temas da vida econômico-social, da cultura, do matrimônio e da família, da comunidade política, da paz e da comunidade dos povos. Em tempos de pleito eleitoral é salutar refletir sobre o espaço de ação da comunidade política, sobretudo diante da insignificância da política no mundo contemporâneo, fortemente expressa na impotência dos políticos, que “já não têm programa, seu objetivo é manter-se no cargo” (Cornelius Castoriadis). O resultado mais indecente da apatia que a insignificância política provoca é o conformismo, e este, infelizmente, redunda no sofrimento humano. É o tipo de sofrimento, dizia Bauman, que decorre de malfeitos políticos e que constitui o supremo obstáculo à sanidade política. Como lidar com o fato de que dentre as nossas conquistas não esteja a capacidade humana de imaginar um mundo melhor e de fazer algo para concretizá-lo?

A compreensão do que faz as coisas serem o que são pode nos dispor à rendição, ao conformismo ou nos instigar à ação. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago aconselhava que “[…] não vejamos sempre, nós homens, as mesmas coisas da mesma maneira, o que, aliás, tem se mostrado excelente para a sobrevivência e relativa sanidade mental da espécie.” Pois bem, o saber da comunidade política, no exercício da cidadania que lhe é peculiar, pode ser usado de forma cínica ou clínica (Pierre Bourdieu). Cinicamente, sendo o mundo o que é, concebe-se uma estratégia que permita utilizar as suas regras para tirar o máximo de vantagem – quer o mundo seja justo ou injusto, agradável ou não, isso não vem ao caso. Clinicamente, o conhecimento da dinâmica da sociedade ajuda a combater o que parece impróprio, perigoso ou ofensivo à moralidade. A escolha do uso desse saber de forma cínica ou clínica compete à liberdade [incluso a religiosa] da comunidade política, que lida com o melindroso aumento da liberdade individual e o coincidente aumento da impotência coletiva – há aí uma corrosão entre a vida pública e a privada.

Sendo a melhor amiga do mal, a banalidade pode nos levar à sensação de orgulho do que talvez devesse ser vergonhoso: trocar a preocupação com o bem público pela liberdade de buscar satisfação pessoal. Atualmente parece plausível lembrar a distinção entre sociedade civil e Estado que, na reflexão eclesial católica, é fruto do trabalho de Jacques Maritain e John Courtney Murray. A sociedade civil é uma realidade mais abrangente, composta por numerosas comunidades intermediárias, tais como famílias, bairros, igrejas, sindicatos, corporações, associações profissionais, cooperativas, universidades, entre outras. Numa sociedade democrática não cabe ao governo restringir, mas servir ao corpo social animado pela atividade dessas comunidades intermediárias. Os laços de solidariedade comunitária formados nelas capacitam as pessoas a agir em conjunto, impulsionando-as a influenciar as grandes instituições sociais, como o estado e a economia. O Papa Pio XI formulou a questão que veio a ser conhecida depois como princípio da subsidiariedade: o governo “deve, por sua própria natureza, fornecer ajuda [subsidium] para os membros do corpo social, ele nunca deve destruí-los ou absorvê-los” (Quadragesimo Anno, n. 79).

De acordo com essa maneira de pensar, a base da democracia não está assentada numa visão unilateral da autonomia individual. A participação na vida democrática e o exercício da verdadeira liberdade na sociedade dependem da força das relações comuns que dão às pessoas uma medida do real poder que têm para construir seu espaço de convivência, incluindo seu ambiente político. Presume-se que indivíduos sós, especialmente aqueles motivados exclusivamente pelo seu próprio interesse e a proteção dos seus direitos à privacidade, serão incapazes de autogoverno democrático. A democracia requer bem mais que isso, ela exige as virtudes da cooperação mútua, da responsabilidade mútua e o que Aristóteles chamou de amizade, concórdia e cordialidade. Lidar com as novas formas de interdependência social que marcaram o final do século XX e adentram este século XXI, demanda discernimento e cultivo das virtudes de solidariedade e mútua responsabilidade entre cidadãos, uma vez que parecem ser pré-requisitos para abordar esta interdependência no cotidiano da comunidade política, de tal forma que esta seja orientada para o bem comum sem perder o viés democrático.